À beira do mar aberto

Contos e cartas de Caio Fernando Abreu

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    Um blog feito para reunir contos e cartas do autor gaúcho Caio Fernando Abreu. As atualizações são feitas sempre que possível para maior conforto de todos.
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    "Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros..."


    “Então eu te disse que o que me doíam essas esperas, esses chamados que não vinham e quando vinham sempre e nunca traziam nem a palavra e às vezes nem a pessoa exatas. E que eu me recriminava por estar sempre esperando que nada fosse como eu esperava, ainda que soubesse.”


    "E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrario: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda“
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Por trás da vidraça

Publicado por Lizzie em Março 23, 2008

Cá entre nós: fui eu quem sonhou que você sonhou comigo?
Ou teria sido o contrário?
Sonhei que você sonhava comigo. Mais tarde, talvez eu até ficasse confuso, sem saber ao certo se fui eu mesmo quem sonhou que você sonhava comigo, ou ao contrário, foi quem sabe você quem sonhou que eu sonhava com você. Não sei o que seria mais provável. Você sabe, nessa história de sonhos — falo o óbvio —, nunca há muita lógica nem coerência. Além disso, ainda que um de nós dois ou os dois tivéssemos realmente sonhado que um sonhava com o outro, também é pouco provável que falássemos sobre isso. Ou não? Sei que o que sei é que, sem nenhuma dúvida:
Sonhei que você sonhava comigo. Certo? Não, talvez não esteja nada certo. Também não era isso o que eu queria ou planejava dizer. Pelo menos, não desse jeito embaçado como uma vidraça durante a chuva. Por favor, apanhe aquele pequeno pedaço de feltro que fica sempre ali, ao lado dos discos. Agora limpe devagar a vidraça — quero dizer, o texto. Vá passando esse pedaço de feltro sobre o vidro, até ficar mais claro o que há por trás. Lago, edifício, montanha, outdoor, qualquer coisa. Certamente molhada, porque só quando chove as vidraças embaçam. Será? Não tenho certeza, mas o que quero dizer, disso estou certo, começa assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Agora penso que é também provável que — se realmente fui mesmo eu a sonhar que você sonhou comigo; e não o contrário — eu não estivesse sonhando. Nada de sono, cama, olhos fechados. É possível que eu estivesse de olhos abertos no meio da rua, não na cama; durante o dia, não à noite — quando aconteceu isso que chamo de sonho. Embora saiba que — se foi dessa forma assim, digamos, consciente — então não seria correto chamá-la de sonho, essa imagem que aconteceu —, mas de imaginação ou invento até mesmo delírio, quem sabe alucinação. Mas não, não é isso o que quero contar, O que quero contar, sei muito bem e sem nenhuma hesitação, começa assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Parece simples, mas me deixa inquieto. Cá entre nós, é um tanto atrevido supor a mim mesmo capaz de atravessar — mentalmente, dormindo ou acordado — todo esse espaço que nos separa e, de alguma forma que não compreendo, penetrar nessa região onde acontecem os seus sonhos para criar alguma situação onde, no fundo da sua mente, eu passasse a ter alguma espécie de existência. Não, não me atrevo. Então fico ainda mais confuso, porque também não sei se tudo isso não teria sido nem sonho, nem imaginação ou delírio, mas outra viagem chamada desejo. Verdade eu queria muito. Estou piorando as coisas, preciso ser mais claro. Começando de novo, quem sabe, começando agora:
Sonhei que você sonhava comigo. Depois que sonhei que você sonhava comigo, continuei sonhando que você acordava desse sonho de sonhar comigo — e era um sonho bonito, aquele —, está entendendo? Você acordava, eu não. Eu continuava sonhando, mas na continuação do meu sonho você tinha deixado de sonhar comigo. Você estava acordado, tentando adequar a imagem minha do sonho que você tinha acabado de sonhar à outra ou à soma de várias outras, que não sei se posso chamar de real, porque não foram sonhadas. Mas, se foi o contrário, então era eu, e não você, quem tentava essa adequação — nessa continuação de sonho em que ou eu ou você ou nós dois sonhamos um com o outro. Nos víamos? Quase consegui, agora. Preciso simplificar ainda mais, para começar de novo aqui:
Sonhei que você sonhava comigo. Depois, fiquei aflito. E quase certo de que isso não tinha acontecido. O que aconteceu, sim, é que foi você quem sonhou que eu sonhava com você. Mas não posso garantir nada. Sei que estou parado aqui, agora, pensando todas essas coisas. Como se estivesse — eu, não você — acordando um pouco assustado do bonito que foi ter tido aquele sonho em que você sonhava comigo. Tão breve. Mas tudo é muito longo, eu sei. Estou ficando cansativo? Cansado, também. Está bem, eu paro. Apanhe outra vez aquele pedaço de feltro: desembace, desembaço. Choveu demais, esfriou. Mas deve haver algum jeito exato de contar essa história que começa e não sei se termina ou continua assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Ou foi o contrário? Seja como for, pouco importa: não me desperte, por favor, não te desperto.
O Estado de S. Paulo, 9/12/1987

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Uma história de fadas

Publicado por Lizzie em Março 23, 2008

Era uma vez o País das Fadas. Ninguém sabia direito onde ficava, e muita gente (a maioria) até duvidava que ficasse em algum lugar. Mesmo quem não duvidava (e eram poucos) também não tinha a menor idéia de como fazer para chegar lá. Mas, entre esses poucos, corria a certeza que, se quisesse mesmo chegar lá, você dava um jeito e acabava chegando. Só uma coisa era fundamental (e dificílima): acreditar.
Era uma vez, também, nesse tempo (que nem tempo antigo, era, não; era tempo de agora, que nem o nosso), um homem que acreditava. Um homem comum, que lia jornais, via TV (e sentia medo, que nem a gente), era despedido, ficava duro (que nem a gente), tentava amar, não dava certo (que nem a gente). Em tudo, o homem era assim que nem a gente. Com aquela diferença enorme: era um homem que acreditava. Nada no bolso ou nas mãos, um dia ele resolveu sair em busca do País das Fadas. E saiu.
Aconteceram milhares de coisas que não tem espaço aqui pra contar. Coisas duras, tristes, perigosas, assustadoras, O homem seguia sempre em frente. Meio de saia-justa, porque tinham dito pra ele (uns amigos najas) que mesmo chegando ao País das Fadas elas podiam simplesmente não gostar dele. E continuar invisíveis (o que era o de menos), ou até fazer maldades horríveis com o pobre. Assustado, inseguro, sozinho, cada vez mais faminto e triste, o homem que acreditava continuava caminhando. Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava.
Um dia, chegou à beira de um rio lamacento e furioso, de nenhuma beleza. Alguma coisa dentro dele disse que do outro lado daquele rio ficava o País das Fadas. Ele acreditou. Procurou inutilmente um barco, não havia: o único jeito era atravessar o rio a nado. Ele não era nenhum atleta (ao contrário), mas atravessou. Chegou à outra margem exausto, mas viu uma estradinha boba e sentiu que era por ali. Também acreditou. E foi caminhando pela estradinha boba, em direção àquilo em que acreditava.
Então parou. Tão cansado estava, sentou numa pedra. E era tão bonito lá que pensou em descansar um pouco, coitado. Sem querer, dormiu. Quando abriu os olhos — quem estava pousada na pedra ao lado dele? Uma fada, é claro. Uma fadinha mínima assim do tamanho de um dedo mindinho, com asinhas transparentes e tudo a que as fadinhas têm direito. Muito encabulado, ele quis explicar que não tinha trazido quase nada e foi tirando dos bolsos tudo que lhe restava: farelos de pão, restos de papel, moedinhas. Morto de vergonha, colocou aquela miséria ao lado da fadinha.
De repente, uma porção de outras fadinhas e fadinhos (eles também existem) despencaram de todos os lados sobre os pobres presentes do homem que acreditava. Espantado, ele percebeu que todos estavam gostando muito: riam sem parar, jogavam farelos uns nos outros, rolavam as moedinhas, na maior zona. Ao toquezinho deles, tudo virava ouro. Depois de brincarem um tempão, falaram pra ele que tinham adorado os presentes. E, em troca, iam ensinar um caminho de volta bem fácil. Que podia voltar quando quisesse por aquele caminho de volta (que era também de ida) fácil, seguro, rápido. Além do mais, podia trazer junto outra pessoa: teriam muito prazer em receber alguém de que o homem que acreditava gostasse.
Era comum, que nem a gente. A única diferença é que ele era um Homem Que Acreditava.
De repente, o homem estava num barco que deslizava sob colunas enormes, esculpidas em pedras. Lindas colunas cheias de formas sobre o rio manso como um tapete mágico onde ia o barquinho no qual ele estava. Algumas fadinhas esvoaçavam em volta, brincando. Era tudo tão gostoso que ele dormiu. E acordou no mesmo lugar (o seu quarto) de onde tinha saído um dia. Era de manhã bem cedo. O homem que acreditava abriu todas as janelas para o dia azul brilhante. Respirou fundo, sorriu. Ficou pensando em quem poderia convidar para ir com ele ao País das Fadas. Alguém de que gostasse muito e também acreditasse. Sorriu ainda mais quando, sem esforço, lembrou de uma porção de gente. Esse convite agora está sempre nos olhos dele: quem acredita sabe encontrar. Não garanto que foi feliz para sempre, mas o sorriso dele era lindo quando pensou todas essas coisas — ah, disso eu não tenho a menor dúvida. E você?

O Estado de S. Paulo, 30/11/1988

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Existe sempre alguma coisa ausente

Publicado por Lizzie em Março 23, 2008

Paris — Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.
Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. Certa vez, encontrei um conhecido de Porto Alegre que não via pelo menos á2o anos. Outra, chegando de uma temporada penosa numa Londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da Guerra do Golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”,feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.
Enrolado num capotão da Segunda Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares da le dela Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.
Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.
Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá, escrevi uma novela chamada Bem longe de Marienbad , homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.
Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.


O Estado de S. Paulo, 3/4/1994

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Até que nem tão eletrônico assim

Publicado por Lizzie em Março 23, 2008

Estou me sentindo o próprio Robocop. Pois não é que ganhei um microcomputador de presente? E desafiando o narrador alter-ego de Onde andará Dulce Veiga?, que com certa arrogância ao mesmo tempo complexada e enfrentativa declara-se pré-informático, resolvi encarar a fera. Afinal, sou um homem anos 90, embora sempre tenha sido artesanal, do tempo da caneta Parker melando dedos e papéis, manchas indeléveis nas camisas brancas do uniforme. Mais tarde, a esferográfica viria revolucionar minha vida (ao contrário de Nélida Pinõn, que orgulha-se de jamais ter empunhado uma Bic), passei por máquinas comuns, elétricas, eletrônicas, pelo PC tipo fusca de Pedrinho Tornaghi, traduzindo o Tao Te King — e tudo sem renunciar jamais ao sagrado ato da escrita manual, cada letra desenhada, pensada, sofrida. Agora tudo mudou.
Pois Robocop, eu ia dizendo, baixou de frente no meu terreiro particular, por artes de duas das fadas que graças a Deus sempre tenho por perto: Vânia Toledo e Regina Valladares. Certa tarde de agosto, hospitalizado e lamuriento, me queixando da dificuldade e dor para escrever deitado, as duas tiveram a idéia: organizar uma “vaquinha” entre amigos para me dar um computador de presente. Fiquei na minha, encabulado e expectante. Bom, as duas moveram céus e terras, dólares e cruzados, faxes e secretárias eletrônicas, agendas e seduções — até que outra tarde, esta de setembro, já em Porto Alegre, recebi um telefonema de Celsinho Curi. Estava na cidade e trouxera este AST (a semelhança com AZT será mera coincidência, suponho, ou haverá micros positivos?) 486SX/33, mais uma impressora Canon BJ-200, siglas e números misteriosíssimos até hoje. Medo: adiei a instalação, viajei, voltei, fugi, neguei. Até que relaxei et voilà, eis-me aqui tatibitateando nas teclas.
São agora quatro da tarde, entrei e saí de vários labirintos, cometi desastres tipo apertar uma maligna tecla Delete, que vertiginosa e frenética apaga tudo, fumei um maço inteiro, quase joguei a coisa pela janela, como Jane Fonda fazendo Lillian HelIman em Julia — mas hei de vencer! Agora mesmo aconteceu um ruído modernérrimo avisando que o documento está salvo. 0k, baby, vamos em frente. Ou íamos: apertei um Backspace em vez do Enter e aconteceram barbaridades inconfessáveis. E de onde saiu essa janela doida que se meteu no meio do texto?
A verdade é que sinto assim como uma saia-justa pairando no ar aqui em volta, quando penso se não será o computador uma espécie de traição à tradição, compreende? Marcel Proust nunca teve um. E García Márquez, ao publicar se não me engano O amor no tempo do cólera, foi acusado de ter “esfriado” seu estilo após a máquina. Lembro ainda do espanto tupiniquim quando Ana Miranda declarou publicamente que havia escrito Boca do inferno num micro, acrescentando modestamente que era um bastante chinfrim. Bem, imagino, que depois do sucesso (merecido) de sua obra, tenha adquirido um poderosíssimo. Quanto a este, todos afirmam ser uma maravilha contemporânea, garantem até que disponho de um modem com fax, pode? Logo eu, eternamente Laika… Anyway, a dúvida bizarra persiste: até que ponto o método de executar a escrita modifica a “alma” da escrita? Cartas para a redação.
Enfim, agradeço a Vânia, Regina, Celso e a todos os outros bem-intencionados anjos que colaboraram para que minha porção Robocop finalmente viesse à tona. Não sei o nome de todos, mas agradeço a chave para este admirável mundo novo cheio de pixeis e bits. Sem conseguir, confesso, evitar uma súbita suspeita paranóica: será que querem mesmo me enlouquecer?
E agora Help, apertei um Exit! Manhê, cadê o mouse que tava aqui?

O Estado de S. Paulo, 13/11/1994

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As nuvens, como já dizia Baudelaire…

Publicado por Lizzie em Março 23, 2008

Tenho um presente para vocês, o melhor presente de Natal que posso dar: uma história bonita. E com agá mesmo, pois é real, embora pareça mais uma estória naquele sentido de Guimarães, o Rosa. Contei-a só a duas ou três pessoas — trata-se de história meio secreta, discreta, para poucos — e se a conto hoje a vocês é não apenas porque o dia é especial, mas vocês também o são para mim. Acreditem.
Foi um sábado de setembro último. Era um daqueles dias de ventania descabelada da primavera gaúcha, e Déa Martins me convidou para ver o pôr-do-sol na Ponta do Gasômetro, na beira do Guaíba, onde os Oxuns se encontram. Sentamos na grama, ficamos olhando o céu, o rio, o horizonte verde das ilhas. Provavelmente fumei um cigarro, Déa deve ter falado dos problemas de produção com os Paralamas do Sucesso, lembramos de nossa amiga Stella Miranda ou inventamos mais histórias sobre as irmãs Salete, Bebete e Janete. O que quero dizer é que não houve mesmo nada especialmente prévio. Nenhum aviso, nenhuma suspeita. “Aconteceu sem um sino pra tocar”, como no poema do príncipe Péricles Cavalcanti que Adriana Calcanhoto canta e outro dia me fez chorar de beleza. Ríamos muito, isso é sempre o melhor com Déa: ri-se sem parar.
O vento espalhava rapidamente as nuvens pelo céu. Dissolviam-se em fiapos primeiro brancos, depois rosa, depois vermelho cada vez mais púrpura, até o violeta, enquanto o Sol ia-se transformando aos poucos numa esfera rubra suspensa. De repente observei: certa nuvem não se mexia. Apenas uma. Parada, branca, enorme, eu olhei desconfiado. E tinha uma forma inconfundível, qualquer criança veria. Desviei os olhos, falei sem parar, as outras nuvens continuavam a esfiapar-se. Aquela, não. Então, com muito cuidado eu disse: “Déa olha lá aquela nuvem.” Ela olhou. E disse: “Meu Deus, é um anjo.”
Sem gritaria, ficamos olhando a nuvem-anjo. Ninguém mais olhava para ela embora, apesar de discreta, fosse um escândalo.
Quanto às outras nuvens, continuavam a se esgaçar, virando sem parar elefantes, camelos, colinas, nuas mulheres barrocas, como é próprio da natureza das nuvens. Mas aquela, aquela uma não se transformava em nada diferente dela mesma, apenas aperfeiçoava a própria forma. Quer dizer: ficava cadavez mais anjo. Mais tarde, ao chegar em casa,tentei desenhá-la. Olho o desenho agora: a perna direita levemente dobrada, como num plie de dança clássica, a esquerda alongada para trás, num per. feito relevé o corpo se curvando suave para a frente, com o braço esquerdo erguido para o alto e o direito estendido em direção ao Sol. A palma aberta da mão direita se voltava para baixo, como se abençoasse o Sol que partia para o Oriente. Além de anjo, bailarino. E tinha asas, imensas, duplas, quádruplas, múltiplas, espalhadas em várias cores atrás dos cabelos longos. Estava lá parada no céu, a nuvem-anjo, abençoando o sol, o rio, o céu sobre nossas cabeças, a cidade longe.
Quase não falamos. Ficamos até supernaturais, espiamos outras coisas, remexemos nas formigas, namoramos à toa em volta. Vezenquando um espichava o canto do olho para avisar ao outro: “Continua lá”. E assim foi, até que o Sol sumiu, o azul- marinho veio vindo das bandas dos Moinhos de Vento, apareceu a conjunção Vênus-Júpiter em Escorpião. A nuvem? Continuava lá, imóvel. E sozinha. O vento era tanto que todas as outras tinham desaparecido, sopradas para Tramandaí, Buenos Aires, Montevidéu. Só restava ela, a nuvem-anjo, abençoando os últimos raios dourados. Começou a esfiapar-se também apenas quando levantamos para ir embora. Ao chegarmos ao carro, não havia mais nada além de estrelas no céu imenso da Lua quase cheia em Aquário.
Pensei: “Glória a Deus sobre todas as coisas”. Foi o único pensamento que me veio. Nem era direito pensamento, parecia mais uma oração.
O Estado de S. Paulo, 2/12/1994

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O livro da minha vida

Publicado por Lizzie em Março 23, 2008

Outro dia me perguntaram qual era o filme da minha vida.
Sem pensar muito, hesitando entre Vagas estrelas da Ursa, de Visconti, e Passagem na neblina, de Theo Angelopoulos, respondi: A História de Adèle H., de François Truffaut. Mais tarde, pensando melhor, decidi: o filme da minha vida na verdade é La strada, de Fellini. Nada me comoveu tanto no cinema quanto aquela Gelsomina de Giulietta Masina, misto de clown e pivete, louca e duende.
Mas se me perguntassem sobre o livro da minha vida, eu não hesitaria um segundo. Esse livro chegou às minhas mãos de maneira meio misteriosa. Eu devia ter uns 9 OU 10 anos quando meu pai apareceu com uma daquelas listas de nome tipo pirâmide (anos atrás foi moda uma com dinheiro, que resultou em mil trambiques, lembram?) — você mandava um livro para o primeiro da lista, colocava seu nome no final, passava a lista para mais três pessoas, semanas depois recebia dezenas de livros. Bom, fiz tudo certo. Mas recebi, nem sei de quem, apenas um livro: era A pequena princesa, de Frances Burnett, se não me engano editado pela Melhoramentos, que devorei em poucos dias, encantado.
Era a história de Sarah Crewe, menina nascida na Índia, órfã da mãe indiana e filha de um nobre inglês. Esse nobre está metido num negócio de minas de diamante na Índia, e deixa Sarah no rico internato da cruel Miss Minchin, em Londres. Sarah quer ser escritora, adora ler e contar histórias para as colegas, algumas muito najas (Lavínia e Jessie) que, como boas inglesinhas racistas, desprezam sua pele morena e cabelos negros. Sarah faz amizade também com Becky, a criadinha escrava de Miss Minchin. Lá pelas tantas, o pai de Sarah morre na Índia de uma doença tropical, sem achar os tais diamantes. Sarah fica na miséria. Miss Minchin a obriga a viver na mansarda gelada do sótão, pleno inverno. A pobre Sarah, mais cadela que Becky, sai à rua em frangalhos, com fome, descalça na neve. Sofre horrores, mas continua do bem, sempre inventando histórias com final feliz. Para a casa ao lado, então, muda uma família enorme e cheia de crianças, também vinda da Índia. Na sórdida mansarda de Sarah começam a aparecer misteriosamente tapetes, poltronas, livros, comida, roupas. Para encurtar a história: as crianças da família são encantadas com a finura de Sarah, a quem chamam de “a menina que não é mendiga”, e fazem o criado indiano Ram Dass entrar escondido pela janela para colocar presentes no quarto dela. No final, descobre-se: o pai da tal família era sócio de um nobre inglês num negócio de minas de diamantes na Índia, e veio para Londres à procura da herdeira, que está riquíssima. Sarah é essa herdeira, claro. Vai morar com a família, leva Becky consigo, e todos vivem felizes para sempre. Como em toda história antiga que se preze.
Em muitas mudanças, e já em frangalhos — eu não me separava dele —, meu livro acabou se perdendo. Em Londres, procurei-o várias vezes sem encontrar, esgotado há décadas. Só uma vez, num sebo em Portobello Road, achei uma primeira edição rara e caríssima, que eu não tinha dinheiro para comprar. Semana passada, peguei na locadora o vídeo de O jardim secreto, de Agnieszka Holland. E lá estava — o filme, que é lindo, foi baseado em livro de Frances Hodgson Burnett, que deve ser a mesma autora de A pequena princesa. Mas quem foi afinal essa maravilhosa escritora, a necessidade da fantasia e o poder transformador do sonho?
Se alguém souber, me diga, preciso saber. E agora acabei de lembrar que tenho alguns amigos vivendo em Londres, vou escrever pedindo a eles que persigam também a pista dessa escritora. Se descobrir, e espero que sim, conto logo a vocês.

O Estado de S. Paulo, 11/6/1995

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A hora do aço

Publicado por Lizzie em Março 23, 2008

Eram dois, depois três, depois um, depois nenhum. Mas isso eu só saberia um pouco mais tarde. Pouco depois de captar o brilho das facas na noite escura. E pouco antes ainda, feito estrelas cadentes, apenas o brilho do aço rasgando a noite, sem saber que eram facas. Antes do frio, antes do corte. Vejo tudo tão de longe agora, como de cima, como do alto, que não conseguiria mais dizer ao certo o que veio antes ou depois, e sei que deve ser inteiramente inútil esta preocupação.
Mas é assim que eu sou. Ou era assim que eu era, antes do aço, enquanto dobrava a esquina daquele beco para encontrar os dois homens metidos na luta de facas dentro da noite morna. Eu vinha descalço, já não lembro de onde, os dois homens tinham os peitos nus cobertos de suor. Eu podia sentir o cheiro de suor deles como um vapor no meio da noite espessa, adocicado pela mistura dos cheiros nas latas de lixo pelo beco com as damas-da-noite atrás de algum muro próximo, como um vapor espesso dentro da noite morna que eu furava com meu corpo vindo nem sabia mais de onde, navio na névoa. De cima, de longe, do alto: tudo nublado.
Mas naquele segundo em que dobrei a esquina do beco, tonto pelos cheiros e ofuscado pelo brilho, mesmo antes de compreender o que via, devo ter gritado para que parassem. Embora não os conhecesse, e sabia disso sem precisar ver suas caras cheias de ódio brilhando tanto quanto as facas no escuro. E embora não os conhecesse mesmo, eram ao mesmo tempo familiares e obscuros como passageiros de um ônibus superlotado nos quais você não chegou a prestar atenção, embora tenha convivido horas com eles, aqueles dois homens de peitos nus cheirando a suor e lixo e flor naquela luta de facas dentro da noite. De dentro, de perto — ali, tudo nítido. Sem saber nada de mim nem deles, sabia claro feito o clarão das facas que não queria que se matassem. Porque de alguma forma informe, sem saber nada de mim nem de onde vinha, sabia fundo que a noite morna de espessos vapores anunciava o final de um outro tempo gelado. E aquele sim, teria sido de morte e ódio — não este, navio na névoa, que informe- mente se desenhava, tentando definir-se através do cheiro misturado das flores com o suor e o lixo para chegar ao novo porto. Ou seria o contrário, e eu mal adivinhava? Nem poderia, por enquanto ali dentro e assim tão perto daquela luta de facas e de noite.
Decidido então, cheguei mais perto. À beira do sangue, os dois homens dançavam. E não interromperam sua dança quando, para adiar o sangue e impedir a morte, fui entrando devagar no meio deles em busca do mesmo ritmo. Sobre nossas cabeças o aço das facas erguidas refletia a luz do néon das ruas além do beco. Éramos três homens agora, dois armados de peito nu e esse outro que era ainda eu desarmado, descalço entre eles. Movíamos pernas e braços numa capoeira tão veloz que antes de encontrar o ritmo da dança e antes que o cheiro de meu próprio suor se misturasse ao deles, antes ainda deste estar longe e acima de tudo, bem no centro do ódio dos homens e dos vapores da noite uma das facas cintilou então mais forte e feriu fundo a planta nua de meu pé direito estendido no ar à procura de uma dança improvável. Não houve dor, eu não gritei na hora do aço.
Enquanto caía percebi o cheiro novo que era do meu próprio sangue misturando-se ao suor deles e aos restos de comida, preservativos usados, roupas velhas, abortos e papéis podres das latas de lixo, mais o das damas-da-noite derramadas sobre algum muro remoto, doce demais, enjoativo demais. Sem náusea nem dor, pois não doía, não doía absolutamente nada, fui caindo furando navio na névoa os vapores da noite morna que agora começava a esfriar dentro e fora de meu quarto, de meu corpo, de meu beco. Vermelho lindo aquele sangue escorrendo grosso do talho aberto em meu pé, mas quem sabe agora então conseguiria decifrar as faces deles, dos dois homens que jogavam longe as facas de néon e estrelas para se curvarem sobre o corpo do que ainda era eu. Seus rostos ficaram muito próximos, mas meus olhos começavam a escurecer. Na neblina tinta de meu sangue sobre os olhos meus também, tossi e cuspi e consegui dizer aos arquejos, mas sem dor nenhuma, que havia sangue solto louco dentro de mim. Depois, sem pedir nada e sem nenhuma revolta, sem nada parecido a um espinho dentro de mim, no meio do sangue aquilo que ainda era eu mesmo sem saber de onde vinha nem para onde ia, disse que estava morrendo. De dentro, de perto, do fundo. Um dos homens falou que ia pedir ajuda. Eu tentei detê-lo dizendo que era inútil, tarde demais ou coisa assim, mas ele se afastou correndo e eu pedi ao outro, cujo rosto não via, que por favor segurasse a minha mão até eu morrer. Meu sangue era vermelho e limpo sobre o chão sujo do beco, saindo de mim aos jorros, aos borbotões, às golfadas como em torneira aberta que você tapa com a mão, depois destapa de repente, assim era meu sangue jorrando. E na mão morna como a noite do homem que ficou ao meu lado, os dedos deles cruzaram-se aos meus num gesto que parecia amor antigo. Não, não: em nenhum momento, nenhuma dor. Eu ia embora de mim como quem dorme, quando os músculos todos se soltam e os pensamentos se esgarçam esfiapados para mergulharem em outro espaço, outro tempo desconhecido — seria esse quem sabe o tempo novo anunciado claro no ar, que eu tinha lido antes? Não sabia, eu não sabia nunca. Apenas segurava a mão do homem que ficara comigo sem sentir mais nenhum cheiro nem ver mais coisa alguma, cada vez mais longe. Eu ia embora de mim: isso era tudo. Eu ia embora de mim sem saber de onde vinha nem para onde iria, navio em outra névoa de vapor espesso cada vez mais próximos, a névoa e o navio. Sabia só que enquanto partia assim, indo para sempre embora de mim e de tudo, a única coisa que queria sentir — que podia sentir, e que sentia enfim, agora que já não havia cheiros nem formas nem gostos nem ruídos — era o contato mcomo da mão daquele homem que ficara comigo enquanto eu partia e tornava a partir sem volta e para sempre de mim. Foi se apagando, certa luz.
Até que meus dedos finalmente mortos e rígidos se desprendessem dos dedos vivos dele, e sem a mão e mais ninguém dentro da minha eu fosse chegando aos poucos mais perto, quase dentro deste outro lado, deste outro espaço, deste outro tempo onde estou agora. E não me reconheço, sem facas nem becos. Já não éramos três, nem dois, homens nem corpos. Eu era um só, depois eu era um eu sem eu.
Eu era nenhum: navio no ar, depois do aço.

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O escolhido

Publicado por Lizzie em Março 23, 2008

Veio num sonho. Que não era vago como costumam ser os sonhos, mas tão nítido que parecia real. Como nos sonhos, ele ao mesmo tempo estava fora e dentro de si. Não mais menino, mas um homem alto, moreno claro, forte, olhos penetrantes. Esse homem que agora era o menino que ele fora estava no alto de algo feito uma plataforma de madeira suspensa no espaço. Sabia que estava no alto porque olhando para baixo — a perder de vista, até o horizonte — podia ver milhões de cabeças humanas com os rostos voltados para ele, rostos atentos de olhos hipnotizados por suas palavras. E para todos aqueles olhos, rostos e cabeças, ele dizia palavras que saíam de sua boca como pedras de ouro — ouro falso, ele sabia, e por isso mesmo ainda mais brilhante. Mas o falso ouro parecia verdadeiro quando voava sobre todas aquelas cabeças transformando-se em líquido para chover sobre os olhos hipnotizados, dentro das bocas secas escancaradas. Então as vozes juntas de todas aquelas cabeças que pertenciam a milhões de corpos gritavam muitas vezes, muito alto, o nome dele.
As vezes com sol, às vezes com lua, ele falava e suava. Abria a camisa encharcada, exibia o peito nu para aquela gente, erguia os braços com o punho cerrado traçando gestos também de ouro no ar daquela primavera ventosa, quase verão. Rei, príncipe, profeta, espadachim, cavaleiro andante, flautista capaz de encantar serpentes, mulheres e homens. O suor descia pelo corpo todo até concentrar-se — denso, viscoso — entre as coxas. Então, sem ninguém perceber, abria as pernas devagar para que o líquido fluísse entre os pêlos. Subia dos testículos direto pela barriga, pelo peito à mostra na camisa aberta, pelo pescoço de veias estufadas no esforço de produzir palavras, pelo rosto avermelhado por aquele calor que o ligava ao alto, num esticado fio vertical entre os pés e a cabeça. O teso fio que dourava suas palavras. “Para isso fui o escolhido”, pensou. E não lembrava de ter sentido tanta felicidade— seria felicidade esse vigor, esse gozo? — em toda a sua vida. Foi quando o menino ruivo ao lado dele estendeu para o céu a ponta do indicador de unha comprida. Indicou primeiro Marte, o planeta vermelho, de onde vinham o poder e a força, depois traçou uma linha de exatos noventa graus ligando Marte a outro planeta rosa, embaçado, cheio de nuvens. Netuno, acreditou ouvir quando baixou os olhos para o menino, de onde vem a inspiração, os loucos e os sonhos. E o viu desenhar treze círculos em volta dele, mancando um pouco, os olhos inteiramente verdes, sem fris nem pupilas, para com outros gestos tocá-lo em sete pontos e setenta e sete vezes sete tomá-lo ainda mais poderoso, ainda mais dourado, ainda mais divino. Acordou com dona Leda chamando, hora da escola, Fernando. Quis contar, não valia a pena. Ninguém entenderia. Além disso não havia tempo para mais nada além do banho, comer o pão, beber o café, pegar livros, recusar carona, vou a pé mesmo, me deixa em paz, não sou mais criança, que saco. Como em vários outros dias, todos iguais, tomou o caminho entre as palmeiras altas da rua Paissandu. Hesitou na esquina da praia. Mas o ônibus azul e amarelo era sempre mais forte. Pela janela aberta as palmeiras corriam feito filme tropical, Pelmex, Xavier Cugat, Maria Felix, altas o suficiente para quase esconder o Pão de Açúcar que passava em frestas e fatias entre ramos, entre postes. “Para isso fui o escolhido”, pensou. E sem que ninguém em volta percebesse — aquelas negras, aqueles nordestinos que um dia beberiam suas pala-vras de ouro falso como o mais puro vinho — outra vez suspendia-se majestoso, irresistível. Para que gritassem seu nome, e assim ele ganhasse a forma de uma pedra também de ouro que subiria ao céu para engastar-se bem no centro do Cruzeiro do Sul. Brilhava por um segundo eterno, depois pulverizava-se em mil cores a um golpe de espada do velho que devorava os próprios filhos. Sou Kronos, o velho dizia, prazer em conhecê-lo, Fernando. Ele riu, pois um dia, pensou olhando em volta, do cobrador ao maneta vendendo bilhetes de loteria, um dia todos vocês saberão. Num salto, desceu em Copacabana e caminhou até a praia. Tirou os vulcabrás, amarrou os cadarços, pendurou-os no ombro, as meias dentro. Afundou os pés na areia ainda fresca da noite, quase dezembro, menos de nove horas. Arregaçou as calças, foi caminhando em direção ao Forte. Ergueu a cabeça, projetou o peito, evitando apenas alguns banhistas quando, nos espaços desertos da praia, gritou palavras grandes para o ar da manhã. Pátria, Destino, Honra, Dignidade, Justiça, Futuro. O sol mais forte, abriu a camisa, enveredou pelas ruas sem que ninguém se importasse com seus pés descalços, a pasta nas mãos. Era só um menino de quase dez anos fingindo que ia para a escola. No Arpoador, sentou nas pedras e olhou o mar. Fixo, sem piscar. Para aquela linha movediça onde o mar encontrava o céu, formando estranhas figuras. Sereias, harpias, súcubos, gnomos do mal. Como signos da linguagem secreta das trevas. De repente, ao olhar para o lado, ele estava ali, o menino ruivo. Reconheceu-o imediatamente, e apenas para confirmar, mas estava certo, desceu os olhos pelas mãos magras dele até encontrar as unhas afiadas que conheciam os astros. E não tinha mais nenhuma dúvida quando ele deu alguns passos para quase tocá-lo, mancando um pouco, discretamente, mal se notava, como se usasse sapatos apertados demais. Seus próprios olhos escuros detiveram-se nos olhos inteiramente verdes do outro. Ele sorriu, O menino ruivo sorriu também. E disse, a voz rouca, quase adulta:
— Fernando, você teve um sonho.
Ele sacudiu os ombros, afetando pouco caso:
— Todo mundo tem, ora. E como é que você sabe meu nome?
O menino olhava fundo nele. Não para seus olhos, mas para qualquer outra coisa que não estava na cara dele. Por trás, por dentro e também para a frente, o menino olhava. Para a cara que ele teria um dia, e para todas as outras que estavam por trás e por dentro de uma por uma de todas as outras caras que ele teria. Até chegar naquela cara futura do homem do sonho — para essa cara que por enquanto ainda não viera, o menino ruivo e manco olhava agora com seus estranhos olhos verdes sem íris nem pupilas.
— Eu sei de muitas coisas. Sei do seu sonho, Fernando.
— Sabe nada. Se sabe, então conta, quero ver. Mancando, o outro sentou a seu lado. E do corpo dele — seria dele ou do mar? — vinha um cheiro de ervas esmagadas, de fruta quase começando a apodrecer, de lixo doce demais. Não de todo repulsivo, mas tão penetrante que Fernando precisou respirar fundo para controlar a vertigem. Também, repetiu a voz da mãe, mal engole um pouco de café e sai por aí feito louco, estômago vazio. Sem tirar os olhos do mar ouviu atentamente, e por inteiro, seu próprio sonho contado pela voz inesperadamente adulta do menino ruivo.
Quando o outro calou-se, perguntou:
— Como é que você sabe?
— Você sabe muito bem como eu sei, Fernando. Eu estava lá. E se você quiser, de agora em diante estarei sempre com você.
Ficaram em silêncio. Olhando para o mar, Fernando sabia que o menino ruivo olhava para ele. Sem piscar, nem um nem outro. Uma gaivota mergulhou súbita nas ondas para erguer um peixe no ar. O sol bateu nas escamas, arrancou um reflexo de prata.
— Ouro — o menino sussurrou. — Ouro e poder, você quer?
Ele não disse nada.
— Não só um apartamento ou uma simples casa
— o menino sussurrou ainda mais baixo, mais perto. — Um país inteiro, você quer?
Ele não disse nada.
— Todas as montanhas, todos os rios. Todas as borboletas e pássaros e animais, todas as cachoeiras de cada uma das matas. As pedras de ouro verdadeiro, os diamantes mais puros do fundo das minas. Uma por uma das gotas de todos os poços de petróleo, você quer?
Ele não disse nada.
— Todas as cabeças, os corpos também. Dos velhos tão velhos que precisam apoiar-se em bengalas para caminhar, dos bebês recém-nascidos que ganharão o seu nome, em sua homenagem. As índias morenas de seios balançando, os adolescentes de carne macia e lisa, onde os pêlos mal passam de uma sombra. Os homens que caminham apressados com pastas cheias de dinheiro pelas avenidas das grandes cidades, todos os caboclos de pés descalços arando a terra e tirando bichos-de-pé à noite, quando descansam. As meninas de cintura fina desta e de outras praias, os rapazes de coxas fortes, peitos cabeludos, músculos salientes. As grã-finas bêbadas de champanha, as estrelas de TV, as garotas das capas de revista, os estivadores, joalheiros, motoristas de caminhão, empregadas domésticas, estudantes. Homem, mulher, velho, criança, pobres, ricos. Todos, sem faltar nenhuma raça, você quer?
Ele não disse nada.
— Para possuir todos, você foi o escolhido — o menino disse. E curvando-se mais: — Pense bem, Fernando. Vou perguntar pela última vez. Tudo isso, você quer?
Ele voltou a cabeça até mergulhar os olhos no verde sem limites dos olhos do outro. E aceitou:
— Quero.
Então as magras, longas mãos do menino ruivo e manco deslizaram pelo espaço entre os dois para afastar o algodão branco de sua camisa. Tocaram seu peito, desceram muito devagar pelos mamilos endurecidos até a região escondida onde, no sonho, concentrava-se aquele liquido mcomo, aquele caldo espesso. Não havia ninguém por perto. Em volta deles as pedras altas bloqueavam a visão de quem estava na praia. E dos barcos ao longe os pescadores veriam apenas duas manchas claras, confundidas, talvez o reflexo do sol nuns cabelos ruivos. Abriu as pernas. As mãos geladas do outro desceram suas calças para puxá-las pelos pés nus, cobertos de areia, dobrá-las e estendê-las delicadamente sob seu corpo. Como sobre uma almofada, deitou de bruços. E não sentiu nenhuma dor quando aquele menino correu as unhas por suas costas enquanto a voz rouca, estranhamente adulta, jurava em sua nuca:
— Está assinado. Para sempre. — Ele jogou a cabeça para trás. A fria língua pontuda em seu ouvido: — Você é o escolhido, Fernando.
— Dentes agudos picaram seu pescoço.
— Mais fundo — pediu.
— Daqui a trinta anos, meu bem-amado — o menino ruivo gemeu. E num movimento mais brusco explodiu dentro dele, enchendo-o de ouro líquido. Aquele mesmo que, trinta anos mais tarde, sairia por sua boca escolhida para chover sobre as cabeças e corpos de todos aqueles homens e mulheres que o aplaudiriam como a cavaleiro andante, um príncipe, um rei. Um deus coroado pelo lado mais negro de todas as coisas. Molhou as pedras num jato prolongado de prazer — o primeiro.
— Como é seu nome? — perguntou então.
Astaroth, imaginou ouvir. Só imaginou. O menino ruivo tinha desaparecido ao sol do meio-dia em ponto, quase dezembro de uma segunda-feira, dia de Exu, nas pedras escaldantes do Arpoador.

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CH’IEN

Publicado por Lizzie em Março 23, 2008

CAPÍTULO 1

Adriana estava sentada em uma poltrona, folheando um livro sem muito interesse. Suas roupas eram modestas, mas não pobres, tinha longos cabelos negros que nunca prendia e seus olhos também eram negros, dando-lhe uma expressão triste que jamais se apagava, nem mesmo quando ela sorria. Subitamente, uma batida à porta. Adriana assustou-se, mas logo levantou correndo para abrir, não sem antes arrumar os cabelos com as delicadas mãos.
— Boa-noite, Adriana — disse o homem a quem a jovem atendeu.
— Oh, Fernando! — falou ela, com sua voz quente e vibrante. — Fernando, tenho tanta coisa para contar…
O homem entrou. Estava ricamente vestido, mas seu rosto era vulgar. Tinha a testa muito larga, contrastando com os olhos miúdos e vivos que examinavam a moça com avidez. Adriana fê-lo sentar e, tomando as mãos dele entre as suas, levou-as à boca, roçando-as suavemente com os lábios.
— Querido — ela disse comovida —, há mais uma estrela no céu, há mais um anjinho aos pés da ‘Virgem Maria…
— Que significa isso, Adriana? — perguntou Fernando, com o largo sobrecenho franzido. A moça, surpreendida com a reação, não conseguiu falar e fez um quase imperceptível aceno com a cabeça. Por fim conseguiu balbuciar timidamente algumas palavras.
— S-sim, Fernando… Agora poderemos nos casar e… então nós iremos viver no seu castelo, Fernando… no castelo de Saint-Marie… nós e nosso filhinho…
Fernando, furioso, deu-lhe um empurrão gritando:
— Idiota! Você pensava que eu, o senhor de Saint-Mame, iria casar-me com você? Com você, uma zinha qualquer? Mulheres iguais a você, Adriana, encontram-se aos montes em qualquer lugar, mulheres que com um gesto oferecem-se a qualquer homem!
Adriana estava em pé. Sua aparência tão doce transformara-se em uma máscara onde se estampavam simultaneamente o ódio, o desespero e o desprezo. Levantando a cabeça, ela olhou fixamente para Fernando e em voz rouca, entrecortada pelas lágrimas, gritou-lhe:
— E homens iguais a você, Fernando de SaintMarie, não se encontram todos os dias. Homens que em sua suja alma não têm um pingo de moral, uma gota de honra nem de dignidade. Homens que não pensam nas mulheres puras e honradas que sacrificam-lhes toda a sua pureza para que eles satisfaçam os seus desejos sexuais, desejos de bestas. E depois de saciados não hesitam em abandonar uma pessoa que sofreu todos os seus sofrimentos, deixando também o sangue de seu sangue, a carne de sua carne que germinou no ventre de quem o amou. Você, Fernando, estava num alto pedestal. Por você eu abandonei tudo, mas agora o pedestal caiu e o ídolo caiu ao chão esfacelando-se.
Cinicamente, o homem contemplava Adriana. Por fim levantou-se, furioso com as últimas palavras da jovem e, dando-lhe uma violenta bofetada, atirou- a ao chão.
— Prostituta! — gritou. — Prostituta é a palavra que serve para você, Adriana!
Em seguida tirou algumas notas da carteira e atirou-as no rosto de Adriana, lavado em sangue e lágrimas.
— Infeliz! — gritou a moça. — Hei de vingar-me, e minha vingança será terrível, Fernando de Saint-Marie. Hei de ving…
Com um gemido, Adriana perdeu os sentidos. Fernando apanhou o chapéu e o sobretudo e saiu assobiando.
Pouco depois, a moça voltou a si do desmaio e arrastando-se penosamente pelo tapete manchado de sangue conseguiu chegar a uma mesinha, sobre a qual estava uma imagem da Virgem com Jesus ao colo. Erguendo o belo rosto para a imagem, Adriana juntou as mãos pálidas e rogou:
— Virgem Santíssima, o que mais quero na vida é que meu filho nasça. Por favor, Senhora, deixe-o nascer… deixe-o nascer…
E proferindo essas palavras caiu novamente des maiada.

CAPÍTULO II

Ali, nas montanhosas escarpas dos Pirineus, erguia-se o imponente castelo Saint-Marie, nome que também designava a família possuidora do castelo. À frente do casarão havia uma alameda que, descendo as escarpas dos Pirineus, encontrava a estrada que levava até um pequeno povoado. Dos lados e atrás do castelo existiam terríveis precipícios e, alguns quilômetros depois, um regatozinho onde as lavadeiras trabalhavam.
Vamos encontrar Fernando de Saint-Marie, o futuro proprietário do castelo, subindo pela alameda que conduzia à morada. Neste instante ele batia à porta com a pesada e severa aldrava em forma de cabeça de leão.
Uma criadinha apressou-se a abrir. Fernando entregou-lhe o sobretudo, o chapéu, e entrou na imponente mansão. Logo à frente da porta havia uma escadaria que, mais acima, dividia-se em duas. O futuro senhor de Saint-Marie subiu essas escadas com passadas fortes, que retumbavam no silêncio do castelo. Tomou a escada da direita e subiu até um amplo living onde se encontravam cinco pessoas.
Uma delas era a Senhora Ilsa de Saint-Marie, mulher de sessenta anos, de fisionomia bondosa e acolhedora. A outra era Eleonora, parente longínqua da fami’lia e que há quatro anos vivia ali, desde que completara quinze anos. Era uma jovem magra, assustada, mas não era feia. Tinha cabelos louros presos num coque e dois olhos enormes e azuis. A outra pessoa na sala, além do avô de Fernando e do mordomo Jacques, era a governanta Amália, uma mulher orgulhosa e vaidosa e que, apesar de ter mais de quarenta anos, nunca se casara, por isso tornando-se amarga e triste. Foi ela quem criou Fernando desde que este nasceu.
Dona Ilsa de Saint-Marie virou-se para o filho com a fisionomia alegre. Com dificuldade levantou- se da poltrona para beijar Fernando:
— E então — perguntou —, como foi seu passeio? — Mas sem dar tempo ao moço de responder, continuou: — Não sei por que esses passeios noturnos, nunca gostei deles. Você sabe, meu filho, que não somos vistos com bons olhos na vila…
— Deixe o rapaz sossegado, Dona Ilsa! — exclamou Amália. — Ele já é um homem, sabe o que faz!
Fernando estava alheio a essas conversas. Lembrava das palavras de Adriana ao sair da casa dela.
Eleonora, noiva de Fernando, amava-o muito, mas ao mesmo tempo sentia certo medo dele. Agora estava triste, pois o rapaz não lhe dirigira um olhar sequer desde que chegara. Adiantou-se intimidada, tomou a mão da Senhora Ilsa e levou-a aos lábios.
— Até logo, titia — disse. — Vou para meus aposentos, se me permite.
A velha Senhora de Saint-Marie tinha um sorriso malicioso nos lábios quando perguntou:
— Já, Eleonora? Não vai conversar um pouco com seu noivo? Ou será que vocês estão brigados?
A tímida jovem murmurou um trêmulo não e saiu quase correndo da sala.
— E você, Amália — continuou Dona Ilsa —, já encontrou a moça que precisava para ajudá-la no serviço?
— Não — foi a seca resposta da governanta. — Mas mandei avisar no povoado.
Fernando avançou e, dando um beijo na enrugada face da mãe, disse:
— Vou seguir o exemplo de Eleonora, mãe. Também vou deitar-me. Estou muito cansado.
Fernando retirou-se. E Amália fez o mesmo, seguida pela Senhora Ilsa e pelo mordomo que empurrava a cadeira de rodas do Senhor de Saint-Marie.
O silêncio caiu sobre o castelo de Saint-Marie.

CAPÍTULO III

Em seus aposentos, Fernando tinha os pensamentos voltados para Adriana:
— “O que pensará ela fazer? Qual será a sua vingança? Ah, mas eu não deveria estar receando alguma coisa da parte de uma mulherzinha vulgar e inculta, apesar de muito bela… Mais bela que minha noiva Eleonora…”
Esse último pensamento de Fernando ocorreu-lhe sem que o quisesse. Mas, na verdade, não se podia comparar a beleza de Adriana à de Eleonora. Uma era ardente, sensual, um verdadeiro vulcão prestes a explodir; a outra, tímida, frágil e delicada. Duas mulheres totalmente opostas uma da outra.
— “E se ela contar à minha mãe que eu, o futuro Senhor de Saint-Marie, sou o pai de seu filho?”
Perto dali, Eleonora tinha seus pensamentos voltados para Fernando. Abraçada ao macio travesseiro, imaginava por que motivo o jovem não retribuía seu amor:
— “Será que ele ama outra, meu Deus? Mas quem, quem poderia ser? Fernando quase não sai do castelo, passa os dias trancado no escritório. E quando sai” — pensava ela com amargura — “…quando sai não se digna a lançar-me um olhar, um gesto, um nada. E eu… eu o amo tanto, tanto… Daria a minha vida para vê-lo feliz…” E enterrando a loura cabeça no travesseiro, ela começou a soluçar baixinho, deixando as lágrimas correrem livremente. Por fim, receando que a cruel Amália a ouvisse, silenciou e adormeceu.
Lá embaixo, no povoado, Adriana tinha pensamentos muito diferentes dos da doce Eleonora:
— “Fernando odeia-me… e eu também o odeio. Não sei como pude entregar minha virgindade a um homem mau que só tem pensamentos voltados para o dinheiro. Preciso vingar-me, preciso fazê-lo sofrer tudo o que estou sofrendo… Sei que Amália, a governanta do castelo, andou pela vila anunciando que necessitava de uma ajudante. Pois bem, eu me empregarei no castelo até que meu filho nasça e então me vingarei de você, Fernando de Saint-Marie. Você há de pagar bem caro o que me fez!” E Adriana cerrou com ódio os punhos. Quando os abriu, tinha as mãos crispadas e no rosto uma expressão de fúria. Foi com dificuldade que conseguiu acalmar-se para poder dormir.

Mas voltemos ao castelo de Saint-Marie, justamente no momento em que um grito horrendo feriu os ares. Passos ressoaram pelos corredores. Era Amália dirigindo-se ao quarto de Eleonora, de onde partira o grito. Entrou e deparou com a moça sentada na cama, com uma expressão de horror no rosto.
— Que aconteceu? — perguntou a governanta.
— Foram eles — respondeu Eleonora com uma expressão de loucura — … foram os fantasmas… eu os vi… ali, na janela… vultos brancos movimentando-se no ar…
— Essa é a maldição que pesa sobre nós, os SaintMarie — disse a voz da Senhora Ilsa, que acabara de entrar.
Eleonora rompeu a chorar e, enquanto Dona lisa a consolava, Amália falou com desprezo:
— Maldição, fantasmas… Fantasmas não existem, minha cara Eleonora. Você sonhou. Ou então…
Notando a pausa feita pela governanta, a Senhora Ilsa procurou completar, perguntando friamente:
— … ou então o quê, Amália?
— Ou então Eleonora está enlouquecendo — concluiu Amália, saindo do aposento.
Eleonora levantou a cabeça e disse quase gri tando:
— Eu sei que não sou louca! Eu os vi… Ali, ali… Eram brancos… sim, muito brancos… e dançavam…
Dona Ilsa encostou a mão na testa da jovem. Estava quente, sim, muito quente. Mas a bondosa senhora não se assustou, e ali permaneceu embalando a pobre moça até que ela dormisse e então, na ponta dos pés, apagou a luz e retirou-se para seus aposentos. E a noite cheia de mistérios e segredos envolveu o castelo até o romper de um novo dia.

CAPÍTULO IV

A manhã já chegou àquela região da França. O dia amanheceu tão bonito que parecia quase impossível existirem ódios naquela linda região. No povoado, as donas de casa já andavam pelas ruas carregando sacolas, todas cumprimentando-se alegremente. Longe da vila, na fonte, as lavadeiras trabalhavam enquanto cantarolavam canções regionais. Quase todos estavam contentes. Somente no imponente castelo dos Saint-Marie é que parecia não haver uma janela ou porta abertas que pudessem permitir a entrada da felicidade.
No castelo, todos já estavam em pé, à exceção do idoso Senhor Danilo de Saint-Marie, que era paraiftico e não se encontrava disposto a levantar-se.
No saguão da morada, a orgulhosa governanta Amália conversava com uma jovem totalmente vestida de preto. Era Adriana.
— Então? — perguntou a governanta. — Você sabe o que tem a fazer aqui?
— Não, senhora — respondeu Adriana. — Apenas sei que desejava uma ajudante, não sei o que tenho a fazer.
— Não é muita cousa. Apenas fiscalizar o trabalho das criadas e servir o café da Senhora lisa, do Senhor Danilo, de Eleonora e de Fernando.
— Adriana não se mostrou nervosa nem mesmo quando ouviu Amália dizer o nome de Fernando. Ela imaginava o que faria o rapaz quando a visse.
— E então? Aceita? Além de seu salário, terá casa e comida.
— Oh, sim, senhora. Permita que eu me retire para ir ao povoado buscar minhas roupas?
A governanta fez um gesto indiferente, e Adriana retirou-se. Amália não simpatizara com a moça, e não procurou esconder isso. Pouco depois a Senhora lisa entrou no recinto acompanhada de Eleonora. Seu rosto estava alegre e, sacudindo no ar um envelope, disse à governanta:
— Amália, imagine o que diz aqui! George acabou seus estudos e vem morar conosco, não é maravilhoso?
Amália não concordava, ela nunca gostara de George, o outro filho de Dona Ilsa. Sempre mostrara clara preferência por Fernando.
Eleonora ainda não conhecia George, por isso mostrava-se animada. Sua paiidez habitual quase a abandonara. Mas fingindo mostrar-se interessada, Amália indagou:
— E quando ele chega?
— Hoje mesmo, Amália — respondeu a Senhora Ilsa. — Após o meio-dia. Não esqueça de arrumar o quarto dele. A propósito, já conseguiu a ajudante?
— Sim. É jovem ainda e muito bonita, por isso creio que não goste de trabalhar.
A Senhora Ilsa ergueu uma sobrancelha, ela conhecia Amália há quase vinte anos e notou que esta não simpatizara com Adriana. Sabia que teria que suportar intrigas e mentiras da parte da governanta para que se zangasse com a moça.
Eleonora pensava em seu noivo. Sabia que ele estava trancado no escritório, como sempre, de onde só sairia para o almoço, mas mesmo assim perguntou, timidamente:
— E… Fernando?
— Ora — foi a resposta impertinente de Amália — está no escritório. Onde mais poderia estar, minha cara Eleonora?
A jovem corou, baixando os olhos, e a governanta deu um sorriso maldoso. Ela considerava Fernando quase como propriedade sua, e não admitia que lhe tomassem seu afeto. Ficou alguns instantes parada e depois, pedindo licença, saiu dali.
A Senhora Ilsa e Eleonora também se retiraram para o jardim e o saguão ficou vazio.
Em seu escritório, no meio de uma papelada, Fernando escrevia nervosamente. Ele procurava concentrar-se no trabalho sem conseguir, seu pensamento fugia para Adriana. Levantou-se e passeou de um lado para outro fumando, fumando incessantemente, depois chegou à janela e ficou a olhar para fora. Assim permaneceu algum tempo, até que um carro parou no jardim e prendeu-lhe a atenção. De dentro do carro desceu uma moça morena, vestida de preto.
Os olhos de Fernando não conseguiam acreditar no que viam, mas era verdade, a terrível verdade. Aquela moça é Adriana! Fernando sentiu-se cambalear e precisou sentar. Passou a mão pela testa e sentiu o suor escorrendo-lhe pelo rosto.

CAPÍTULO V

Adriana caminhava rapidamente pelos longos corredores do castelo, nas mãos uma pequena valise onde estavam guardadas suas poucas roupas. Neste momento, ela passava justamente pelo escritório de Fernando quando a porta se abriu.
— Adriana — disse Fernando, agarrando a jovem pelo braço. — Adriana, o que é que você está fazendo aqui?
A moça assustou-se, mas recobrou a calma e fitou friamente aquele homem. Deu um safanão no braço e disse:
— Estou empregada aqui, Fernando, e aqui ficarei até o meu filho nascer.
Adriana deu uma entonação especial às três últimas palavras, e gozou com o desespero de Fernando.
— Mas você.., você não vai… — gaguejou ele. — Não, Fernando. Não vou contar nada à sua mãe. Por enquanto, não. E agora largue-me, tenho o que fazer.
E a moça, com um gesto de desprezo, retirou- se caminhando de cabeça erguida.
As horas passaram-se. No grande salão, todos, menos o Senhor Danilo de Saint-Marie, estavam reunidos para o almoço. Adriana servia a mesa. A Senhora Ilsa mostrava-se muito excitada, pois George poderia chegar a qualquer momento. Subitamente uma batida na porta fez a Senhora levantar-se.
— É George, eu sei! Meu coração diz que é ele! — Dona Ilsa fez questão de abrir ela mesma a porta. Ali estava parado umjovem moreno, alto, vestido com cuidado, e seus olhos inteligentes tinham um tom esverdeado. Dona Ilsa abriu a pesada porta e o rapaz atirou-se nos seus braços.
Depois ele cumprimentou Amália, Fernando, Eleonora e… Adriana. Nestas duas últimas, o seu olhar parou, ele não as conhecia. Eleonora estendeu-lhe a mão e disse:
— Eu sou Eleonora, George.
O jovem beijou-lhe a mão, mas seus olhos não se desviaram de Adriana.
— Quem é essa moça? — perguntou.
— Oh — Amália apontou Adriana —, é a minha nova ajudante. Começou a trabalhar hoje. George sorriu para Adriana, simpatizara com ela. A moça retribuiu-lhe o gesto, sorrindo timidamente.
E ficariam ali a fitar-se se Dona lisa não os interrompesse.
— Venha, George — disse ela —, você deve estar cansado. Vamos até o seu quarto.
Adriana ficou parada, seu coração batendo descompassadamente. Sentia algo que não podia definir, como uma vontade louca de correr, de olhar o céu, o sol, as flores. Mas a fria Amália interrompeu os seus pensamentos perguntando:
— Adriana, você não vai servir Fernando?
A moça estremeceu e pegou uma vasilha. Fernando notara como ela ficou impressionada com o seu irmão, e uma onda de ciúme, de ódio, de rancor invadiu-lhe o coração. Sim, ele não conseguia esconder seus sentimentos: Fernando amava Adriana.
A tarde passou sem novidades até a hora dojantar, quando todos voltaram a reunir-se em volta da mesa.
— E George? — perguntou Amália.
— George está muito cansado — respondeu a Senhora lisa. — Ele ficou em seus aposentos. Adriana vai levar-lhe o jantar.
Adriana estremeceu, mas pegou uma bandeja e, subindo as escadas, bateu à porta do quarto do rapaz.
— Entre — disse ele.
Adriana entrou. O rapaz estava deitado lendo um livro, mas, ao vê-la, passou a mão pelos cabelos e colocou o livro sobre a mesinha de cabeceira.
— Vim trazer-lhe a janta, senhor George.
A moça colocou a bandeja sobre a mesa. Ao fazer isso, seus olhos encontraram-se com os de George. Este, sentando-se na cama, perguntou:
— Por que está tremendo, Adriana?
— Por nada — disse ela nervosamente. — Sou uma tola.
— Sabe que é muito bonita?
Adriana corou, mas nada respondeu e, abrindo a porta, saiu do quarto. Seu coração voltara a florir: Adriana sentia que encontrara o seu verdadeiro amor
e estava feliz. Ela amava George como nunca tinha amado ninguém. Era um sentimento puro, calmo, belo, muito diferente da violenta paixão que sentira por Fernando.

CAPÍTULO VI

Amanheceu mais um dia na França. Lá no alto, no castelo dos Saint-Marie, a vida de intrigas, ciúmes e desconfianças continuava. Ainda não eram nove horas e todos continuavam em seus aposentos, à exceção da governanta Amália, que dava ordens na cozinha, e de Adriana. Adriana já levou o lanche a todos, menos a Eleonora e a George, e o de Fernando, Amália fez questão de levar.
Neste momento Adriana subiu para servir George. A bandeja tremia em suas mãos e o seu coração batia nervosamente. Ela contou lentamente os degraus até chegar lá em cima e bateu à porta, depois entrou sem esperar resposta.
— Bom-dia, senhor George.
— Bom-dia, Adriana. Sabe que esta noite sonhei com você? Ora, não precisa ficar vermelha assim…
Adriana baixou a cabeça e murmurou:
— Senhor George, eu… eu sou apenas uma criada, nada mais que isso.
George a olhou sorrindo, mas não se conteve e disse:
— Adriana, sabe que a amo? — A moça ergueu o rosto muito pálido e ficou a olhar o másculo rosto do rapaz. Mas eis que surgiu como um turbilhão e, sem que ela pudesse explicar como, seus lábios encontraram-se com os de George e um doce beijo os uniu. — Adriana, desde que a vi senti que minha vida ia mudar. Eu a amo muito… muito…
Enlevada, Adriana repetiu as últimas palavras do rapaz:
— Eu o amo muito… muito… — Mas subitamente lembrou-se que já pertencera a outro, e afastou-se bruscamente, saindo do quarto a correr. Chegando às escadas, começou a chorar, mas secou as lágrimas com as mãos e desceu.
Enquanto isso, na cozinha, uma mão segura um pequeno frasco e despeja um pó branco no café destinado à Eleonora.
A manhã passou tranqüilamente. No almoço, Adriana procurou evitar que seu olhar se encontrasse com o de George, mas ficou tão nervosa que derramou um prato de sopa, levando uma repreensão da dura Amália. Findo o almoço, a Senhora Ilsa propôs um passeio pelos campos, mas somente Eleonora e George animaram-se com a idéia. E os três convidaram Adriana para acompanhá-los.
Safram a caminhar. Adriana acompanhava a Senhora Ilsa; mais à frente George caminhava com Eleonora, olhando de vez em quando, furtivamente, para trás.
— Adriana — disse a Senhora Ilsa, arquejando —, acho que não posso mais, vamos sentar um pouco?
A jovem sorriu e procurava ajudar Dona lisa quando tudo escureceu, e ela precisou segurar na mão da velha senhora para não cair.
— O que houve, Adriana? — perguntou Dona Ilsa. — Está se sentindo mal?
— Oh, não — respondeu a moça, passando a mão pela testa —, foi apenas uma tontura… Já passou…
Dona Ilsa notou a palidez da jovem e procurou dar à voz um tom normal quando disse:
— Minha filha, sou velha e experiente, não procure esconder nada de mim. Eu sei o que há. Você… você vai ter um filho, não é isso?
Adriana não respondeu, desejaria estar muito longe dali, desejaria não ter que contar sua amarga história à bondosa Senhora Ilsa. Pensando nisso, começou a chorar convulsivamente.
— Chore, minha filha, chore que isso só lhe fará bem. Mas não se preocupe, não a mandarei embora. O seu filho terá um lar.
A moça levantou os olhos cheios de gratidão e abraçou Dona Ilsa. Nesse momento, Fernando assomou à janela do castelo e ficou intrigado ao ver aquela inesperada cena. Vendo aquilo, George e Eleonora também voltaram-se, e o rapaz perguntou, trêmulo:
— O que houve com Adriana, mamãe?
— Houve que… que Adriana vai ser mãe…
— … vai ser mãe?! —repetiram Eleonora e George
A Senhora lisa acenou com a cabeça e, abraçada a Adriana, voltou-se e começou a caminhar de volta ao castelo dos Saint-Marie.

CAPÍTULO VII

Mais uma noite cobriu a França e todo o Ocidente. Os cães e lobos começaram a entoar sua costumeira canção à lua que, naquele dia, nega-se a aparecer e com ela, também as estrelas. O céu estava sem nuvens, negro, totalmente negro, e a angústia parecia pairar sobre o mundo, principalmente na velha mansão da tradicional família dos Saint-Marie, onde um manto de desgraça envolvia tudo. Aos lados e atrás do castelo, os ameaçadores precipícios dos Pirineus aumentavam a tristeza do cenário.
A refeição notuma estava sendo servida. Ao redor da mesa agrupa-se toda a família, até mesmo o Senhor Danilo, que se sentia melhor. Amália, a fria governanta, também está à mesa, pois é quase uma Saint-Marie. Adriana servia os pratos, ajudada por uma criada macilenta que parecia estar sempre receando uma repreensão.
— Toda a famflia reunida, hein? — disse George, tentando alegrar o ambiente.
Amália teve vontade de dar uma de suas costumeiras respostas. Chegou a abrir a boca para falar, mas a Senhora Ilsa, como que prevendo o que ela diria, lançou-lhe um olhar e o silêncio se restabeleceu. A suave Eleonora olhava Fernando que, calado como sempre, não lhe prestava atenção. A jovem reprimiu um soluço e levou o garfo aos lábios, mas uma garra de ferro pareceu comprimir-lhe a garganta. Ela soltou um gemido que se transformou num grito lancinante e depois tombou.
— Eleonora! — gritou Dona Ilsa, levantando-se.
— Eleonora, o que houve? — falou George, auxiliando ajovem a levantar-se. E voltando-se para Adriana, pediu: — Adriana, pegue um copo d’água, depressa, por favor!
Todos estavam nervosos e falavam ao mesmo tempo, apressadamente. Amalia esquivou-se e subiu as escadarias quase correndo. O terror e a alegria estampavam-se ao mesmo tempo em seu rosto perverso.
— Outra vez — gemeu Eleonora —, outra vez…
— Mas por Deus — gritou George borrifando-lhe as faces com água —, o que aconteceu?
— Confie em nós, minha filhinha — pediu a Senhora Ilsa. — Diga-nos o que aconteceu.
Até mesmo Fernando aproximou-se e tomou a mão da moça. Eleonora sorriu, dizendo depois:
— Foi só um mal-estar… Não se preocupem, já estou bem…
O velho Senhor Danilo de Saint-Marie aproximou-se em sua cadeira de rodas e falou tremula mente:
— Minha filha, ouça um conselho ditado por um homem velho e experiente. O que você tem sempre aconteceu com as noivas dos Saint-Marie, algumas chegaram a morrer antes de casar e…
Com lágrimas nos olhos azuis, Eleonora gritou:
— E… Continue, por favor, diga que estou enlou quecendo!
O velho sorriu mostrando as gengivas murchas e descoradas:
— Não, Eleonora, não é isso… É a maldição dos Saint-Marie! Por causa dela estamos todos refugiados neste castelo, reduzidos a este mísero grupo. Nós… que já dominamos quase toda a França!
— Então é isso — gritou Eleonora. — É a maldição de que nunca quiseram falar!
Dona Ilsa procurava acalmar a jovem acariciando-lhe as louras mechas do cabelo. Fernando aproximou-se do velho senhor e perguntou:
— E o que o senhor aconselha?
O velho deu um sorriso enigmático e disse:
— Casar-se, casar-se o quanto antes… Antes que sua noiva seja levada pela morte!
E afastou-se rindo alto. Enquanto isso, Amália regressou fingindo um nervosismo que estava longe de sentir. A Senhora Ilsa ergueu-se, tinha o ar solene, o ar que adotava nos momentos importantes.
— Pois o casamento deve realizar-se o quanto antes — disse. — No máximo, dentro de um mês.
Fernando fez um gesto de pouco caso, que feriu Eleonora, feliz com a realização de seu sonho. A um canto, Adriana sentia-se mais do que nunca como uma simples criada, como uma mulher ultrajada que procura vingar-se. Sem querer, olhou terna- mente para George e, para sua surpresa, o rapaz lhe devolveu o olhar. Olhar esse que não passou despercebido. Amália o notou. A família ainda ficou reunida mais algum tempo a conversar, a fazer planos para o casamento de Fernando e Eleonora. Mas logo recolheram-se, e todas as luzes se apagaram.

CAPÍTULO VIII

Adriana caminhava pelos longos corredores do castelo. A escuridão a assustava, e só ao lembrar-se que tem que subir ao último andar, onde fica seu quarto, tem um arrepio de medo. Agora ela passava pelo quarto da Senhora Ilsa Saint-Marie, logo além ficavam os aposentos de George. Mas de repente parou, e foi com espanto na voz que perguntou:
— George! O que está fazendo aqui?
— Adriana — disse o rapaz num sussurro —, não posso mais… Eu a amo muito, temos que nos casar!
Espantadíssima, Adriana só conseguiu gaguejar:
— E-eu t-também… amo você, George… mas você sabe que… q-que eu…
— Sim, eu sei que você vai ter um filho, Adriana. Mas creia, eu a amo muito e isso não faz diferença. Sei que você ainda conserva a pureza da alma e se cometeu alguma… alguma loucura.., foi num momento de embriaguez, num momento de paixão.
O rapaz falava ansiosamente, olhando bem dentro dos negros e tristes olhos da infeliz Adriana. Esta sussurrou:
— George, nosso amor é puro, sim, mas nunca seria feliz. Sempre haverá aquela sombra em meu passado… e você não sabe quem é o pai de meu filho…
— Adriana, não me torture… Nós poderemos esquecer isso, e o pai de seu filho, o canalha que a maculou, não se interporá jamais entre nós. Quando a criança nascer nós já estaremos casados!
Adriana pensou na felicidade de que poderia usufruir. O futuro estava em suas mãos, e por um instante ela quase esqueceu por que estava ali.
— Não, George, eu o amo também… mas tenho outro objetivo em mente. Só poderemos casar quando eu já o tiver alcançado, e isso será muito breve, creia-me.
George espantou-se com o tom em que eram ditas aquelas palavras, e mais estupefato ficou quando Adriana saiu a correr, sem lhe dar explicações. Mas ele conseguiu alcançá-la.
— Adriana, não sei que objetivo será esse. Mas quero que me prometa o seguinte: dentro de um mês, no casamento de meu irmão, anunciaremos o nosso noivado, está bem?
A jovem concordou com a cabeça. Sim, que melhor vingança poderia desejar? O despeito e o ciúme de Fernando ao saber que ela, Adriana, seria uma Saint-Marie, e que o seu filho poderia ser o senhor de tudo um dia. Mas não apenas por isso casaria com George, não: eia também o amava. Com um beijo rápido, despediu-se de George e foi para seu quarto. O resto da noite passou com o horror de costume. Isto é, os fantasmas apareceram novamente para Eleonora, que outra vez gritou, pedindo socorro. Todos acudiram a seus gritos, e a Senhora Ilsa, olhando pelo janelão, nada conseguiu ver, embora desejasse estar enganada. A Senhora lisa julgava, assim como todos os outros, que a pobre moça estava mesmo ficando louca.
E as horas, os dias, as semanas passaram rapidamente. Agora faltam apenas dois dias para o enlace de Eleonora e Fernando, e também para o noivado de George e Adriana. Cerca de vinte empregados movimentavam-se pelo castelo arrumando, limpando, enfeitando. Apesar dos protestos de Amália, a Senhora lisa fazia questão de que fosse realizada uma festa de arromba.
Passou-se mais um dia. À noite, Eleonora teve novamente suas visões, e no dia seguinte, à hora do almoço, recusou o alimento. A Senhora lIsa, Adriana e George mostravam-se preocupados com a jovem, que definhava a olhos vistos.
Mas o tempo é inexorável, e o sol descambou mais uma vez.

CAPÍTULO IX

Finalmente chegou o esperado dia. Desde cedo Adriana estava em pé, e não só ela, Amália, George, a Senhora Ilsa, Fernando e até o Senhor Danilo de Saint-Marie fizeram questão de madrugar. Eieonora, por insistência de Dona Ilsa, permanecia em seus aposentos.
Deitada em seu leito, Eleonora pensava: — “Afinal chegou o dia, o grande dia de meu casamento. Eu devia estar feliz, mas não sei por que não estou. Sinto algo… algo que me diz que Fernando não é como eu penso… Oh, mas como sou tola, pensando sempre em coisas tristes.” E tentou mudar seus pensamentos, mas não o conseguiu. Permaneceu então deitada até que uma batida à porta a sobressaltasse. Era Adriana, com uma cestinha de onde retirou uma escova e um pente.
— Bom-dia, Eleonora, vim prepará-la para a ce rimônia.
Eleonora olhou para o vestido de noiva sobre uma poltrona. Era lindo, sim, lindíssimo e muito antigo: fora usado pela primeira Saint-Marie e seria usado pela última, rezava a tradição da família. A moça tentou levantar-se, mas estava muito fraca e quase não conseguia sair da cama. Adriana ajudou a moça a vestir-se e começou a passar-lhe o pente pelos louros cabelos, enquanto conversava alegremente. De súbito, Eleonora perguntou-lhe:
— Adriana, por que você está sempre vestida de preto? Morreu alguém de sua família?
Adriana teve um sobressalto, e foi com a voz repassada de tristeza que respondeu:
— Não, minha amiga, não morreu ninguém de minha família, pois já não a tenho. O que não existe mais é… um ídolo ou um homem que do mais alto degrau passou para o mais baixo… e acabou esfacelando-se e misturando com a poeira do chão…
Eleonora não entendeu mas, percebendo que o assunto entristecia Adriana, calou-se.
As horas passaram. A Senhora Ilsa veio bater à porta do quarto de Eleonora.
— Eleonora, minha filha, apresse-se! Só estamos esperando por você.
Adriana abriu a porta e a noiva saiu do recinto, belíssima, parecendo um anjo caído há pouco do céu. A Senhora lisa extasiou-se com a beleza da jovem e
George, que passava por ali, soltou um assobio de entusiasmo.
— Você está lindíssima, prima! E você, Adriana, não vai se arrumar também?
A moça fez um aceno com a cabeça e saiu em direção a seu quarto. Dona lisa e George acompanharam a frágil Eleonora até a capela dos Saint-Marie, onde já estavam os convidados. A aparição da noiva fez um murmúrio de admiração erguer-se no ar. George estava impaciente e, quando viu Adriana entrar, puxou-a para o altar e disse:
— Senhores, em breve outro casamento realizar-se-á aqui. Tenho o prazer de comunicar-vos que estou noivo da senhorita Adriana Legrange!
Um murmúrio ergueu-se novamente. Todos estavam espantados com George de Saint-Marie casar-se com uma pobretona, além de tudo no estado em que se encontrava. Mas Dona Ilsa mostrou-se feliz, e não se cansava de beijar e abraçar a noiva. Todos da família aprovavam o casamento, apenas Fernando parecia descontente e Amália mordia os lábios de despeito.
A cerimônia começou. Transcorreu tudo normalmente e, depois de realizado o casamento, todos dirigiram-se para o castelo, onde um lauto almoço será servido aos convidados. Adriana já não era mais uma criada, mas a noiva de George. Todos pareciam tranqüilos e felizes, mas eis que um horrendo grito interrompeu a tagarelice das mulheres.
— Vejam! — gritou um convidado, apontando um vulto branco que despencava no precipício.
Uma mão invisível pareceu tapar a boca de todos. Um silêncio mortal envolveu o castelo de SaintMarie. O vulto branco era Eleonora.
— Eleonora! — gritou a Senhora lisa. — Eleonora, minha filha querida!
E fez menção de jogar-se também no precipício. Fernando conseguiu segurá-la a tempo. Entre lágrimas, George balbuciou:
— Ela era um anjo, e os anjos não pertencem à Terra.

CAPÍTULO X

Após o frustrado casamento de Fernando, uma profunda mudança ocorreu em Saint-Marie. A Senhora lisa tcomou-se uma mulher triste e caiada, a maior parte do dia rezando na pequena capela ou no túmulo de Eieonora. Amália tcomou-se ainda mais fria e insensível, parecendo intimamente muito satisfeita. Adriana agora já não era apenas uma criada, não mais servia à mesa ou tirava o pó dos móveis, e ocupava seu tempo a fazer roupas para o filho. George continuava a ser aquele rapagão alegre, mas sua alegria às vezes parecia forçada. Fernando não mudou: a morte de Eleonora não o comoveu absolutamente. Mas tomemos uma noite da mansão e vejamos o que acontece. Adriana não conseguia dormir, revirando-se na cama. Subitamente olhou para a janela e viu vultos brancos esvoaçando. “Fantasmas”, pensou ela, e de sua garganta saiu um grito aterrorizado.
Quase imediatamente surgiram a Senhora lisa, Amália e George.
— Ali… — disse ela, trêmula — …ali na janela… os fantasmas… — E rompeu num choro convulsivo.
— É a maldição — disse soturnamente Amália. Ela está noiva de um Saint-Marie e…
Dona lisa interrompeu a governanta para consolar Adriana.
— Não chore, filhinha — disse ternamente —, isso não é bom no seu estado, não se preocupe.
George também consolava Adriana:
— Querida, acalme-se, pense em nosso filho.
A moça ficou satisfeita ao ouvir o nosso, e acalmou-se, adormecendo novamente.
Como Amália estava sozinha para atender toda a mansão, uma nova criada substituiu Adriana. No seu primeiro dia, levou o café da manhã para a moça.

— Bom-dia — disse Adriana —, vejo que é nova aqui. Como se chama?
— Lili, madama — respondeu a figurinha magra e irrequieta. — Mas se quiser pode me chamar de Noeli, que é meu verdadeiro nome, eu porém prefiro…
— Sei, sei — respondeu Adriana, rindo da maneira truncada da mocinha falar. — Dê-me o café, Liii.
A empregadinha, sempre rindo muito, perguntou:
— Eo seu nome, madama? Não é a Dona Driana?
— Adriana — corrigiu a moça —, mas dê-me logo o café e deixemos de tagarelar.
— Sim senhora, olha, eu trouxe até um pão com mantêga pra madama tão bonita.
—Manteiga, Liii, manteiga.

Adriana tomou seu café, depois entregou a bandeja a Liii, que saiu do quarto muito espevitada. O dia estava lindo. A Senhora lisa levantou-se muito cedo e foi fazer sua visita matinal ao túmulo de Eleonora. Adriana saiu a passeio com George, só voltando ao meio-dia. Ao sentar-se à mesa, Amália fitou-a com olhos estranhos. Subitamente a moça soltou um grito e caiu ao chão desfalecida.
— Adriana! — gritou George desesperado. — Oh, não! Está acontecendo com ela o mesmo que com Eleonora!
— Minha querida — disse Dona lisa maternalmente
—, tome este copo d’água e logo ficará boa.
Fernando retirou-se bruscamente da saia. Amália disse, vitoriosa:
— É a maldição! Dela ninguém escapa, ninguém!
O Senhor Danilo de Saint-Marie aconselhou:
— Vocês têm que casar-se logo, antes que o precipício chame Adriana, como fez com Eleonora.
O velho senhor era muito respeitado, sua sugestão era a única aconselhável. Ficou decidido então que a cerimônia seria logo realizada, um casamento simples, quase em segredo.
No dia seguinte George foi ao povoado arrumar os papéis necessários para o casamento. Adriana ficou no castelo, tricotando e conversando com Liii, a criadinha, com quem fez grande amizade. Amália caminhava sozinha pelos corredores. Suas passadas retumbavam no silêncio, ela parecia preocupada com alguma cousa.
Ao anoitecer, George voltou ao castelo, cansado, mas feliz. Dentro de uma semana será realizado o casamento.

CAPÍTULO XI

Passaram-se cinco dias de tensão em SaintMarie. Adriana tinha visões e desmaios cada vez mais freqüentes. Certa noite ouviu-se um grito louco no castelo, mas não vinha dos aposentos de Adriana, e sim do quarto de Amália.
Todos correram para lá. A peça estava cheia de fumaça negra, uma língua de fogo lambia o teto.
— Tia Amália! — gritou Fernando penetrando no aposento. — Tia Amália, onde está a senhora?
Nesse momento ouviu-se um estrondo na parte norte da mansão, aquela parte do castelo acabara de ruir.
Subitamente uma horrenda gargalhada assustou a todos. Amália, correndo pelos corredores com um toco de vela na mão, parecia totalmente louca. Com uma expressão de fúria, ela gritou:
— Eleonora morreu! E Adriana morrerá também! Os Saint-Marie morrerão todos! Eu os matarei um a um! Sempre fui tratada como uma criada, mas me vingarei! Hei de matar a todos, todos!
George agarrou a infame governanta e puxou-a para fora da mansão. Adriana, a Senhora lisa e Danilo de Saint-Marie, com sua cadeira de rodas empurrada pelo mordomo Jacques, seguiram atrás. Liii já se encontrava lá fora.
— Jacques — pediu George —, segure Amáiia enquanto vou buscar Fernando.
E entrou novamente no castelo envolto em nuvens de fumaça. Adriana gritou por ele, mas o corajoso rapaz não a atendeu.
— George — chorava Dona Ilsa —, George, não… Perdi minha querida Eleonora, Fernando e agora George. Não, meu Deus, é demais para mim.
— Acalme-se, filha — disse o idoso Senhor Danilo. — George voltará e trará Fernando também.
Dona Ilsa chorava desconsoladamente. Adriana não sabia o que fazer. Amália acalmou-se, e lágrimas caíam-lhe dos olhos enquanto pronunciava palavras desconexas.
— Veneno, veneno… meu amor… Eleonora… Fernando… eu me vingarei… o pó… sim, o pó está lá dentro… deixem-me buscar o pó… os lençóis… os fantasmas… a maldição… ninguém escapa da maldição… — E sacudia a cabeça desgrenhada violentamente. Nesse momento um formidável estrondo retumbou no silêncio da noite. O castelo de Saint-Marie já não existia. E… George?
— George! — gritou Adriana. — George, querido, onde está você?
Um grito respondeu ao chamado de Adriana: era George, curvado sobre o corpo inanimado de Fernando. Adriana correu para lá. Ao ver a moça Fernando sussurrou:
— Adriana… você… você me perdoa?
Adriana limpou com o lenço o sangue que escorria do peito de Fernando, acenando com a cabeça. “Sim”, murmurou, mas o homem já nada escutava. Fernando de Saint-Marie estava morto.
A Senhora lIsa chorava mansamente enquanto acariciava os cabelos do rapaz.
— O que é que você perdoa, Adriana?
— Fernando era o pai de meu filho — murmurou Adriana. E ante os olhos estupefatos dos outros a moça desfiou a sua longa e triste história. Dona Ilsa a abraçou, dizendo entre lágrimas:
— Você é uma Saint-Marie, Adriana. — E virando para Amália, perguntou friamente: — E você, o que tem a dizer?
Amália não oferecia mais resistência, e respondeu:
— Eu amava Fernando e odiava todos os SaintMarie. Por isso suspendia lençóis à janela do quarto de Eleonora, e depois de Adriana. Uma negra velha da aldeia deu-me um pó branco que eu colocava nos alimentos de Eleonora e de Adriana, daí provinham os desmaios e tonturas.
— Terminou? — perguntou George, espantado com a revelação.
— Sim, terminei.
Liii comentou:
— Puxa, que mulher ruim!
Jacques, o mordomo, levou Amália ao povoado para deixá-la na delegacia.
— Perdi Eleonora — lamentava-se Dona Ilsa —, e agora perdi também Fernando…
— Não chore, mamãe — disse George. — A senhora ganhou uma filha.
Dona Ilsa levantou os olhos cheios de lágrimas para Adriana, procurando sorrir.
— Está feliz? — perguntou George a Adriana.
— Oh, George! — soluçou a moça. — Como posso estar feliz? Não mereço o seu amor. O meu coração estava cheio de ódio por Fernando, eu só pensava em vingança. Você me perdoa?
Como resposta, o rapaz abraçou-a e deu-lhe um leve beijo nos lábios. Talvez agora eles possam ser felizes, a pérfida Amália não fará mal a mais ninguém.
A aurora já põe os dedos cor-de-rosa no puro azul do firmamento. Contra o horizonte destaca-se a outrora mansão dos Saint-Marie, agora transformada em ruínas. Mais atrás vê-se a silhueta de dois jovens abraçados, parecendo uma promessa de esperança e fé no futuro.

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A visita

Publicado por Lizzie em Março 23, 2008

Ele chegou devagar e sentou-se na varanda coberta de begônias empoeiradas, sem uma palavra. Ninguém perguntou de onde vinha. Naquela casa cheia de gentes e barulhos cotidianos, um inesperado silêncio respeitou sua chegada. As crianças o olharam com curiosidade — a mesma curiosidade que os adultos continham brotava nelas, espontânea, e cercavam o homem sem medo, achando apenas estranha aquela figura esfarrapada, mas muito limpa, de pés descalços semelhantes a raízes. O homem parecia não reparar nelas, nem nos outros. Olhava para longe sem se mover, olhava para longe com alguma coisa determinada e fatal guardada nos olhos. Alguns suspeitaram nesse olhar sabedorias trazidas dos lugares por onde andara, compreensões maiores, aprendizados tão amplos que voz nem gesto expressariam. “O que mais sabe é o que mais cala”, sussurravam numa aceitação de seu silêncio. E passavam como se não o vissem, sequer comentando entre si a chegada dele, estabelecendo tácitos que ele ali estava, e nada modificaria essa situação. Os mais antigos olhavam o retrato pendurado na sala, investigando semelhanças: o retrato amarelado pelo tempo, o homem amarelado pela vida. Mas embora os traços fossem os mesmos — a curva no nariz adunco, o vinco duro e fundo no canto da boca, o rosto encovado e longo —, embora mais castigados pelos anos, havia no homem da varanda uma claridade que o retrato não tinha. Havia no homem como uma aura quase insuportável de lucidez e ausência. Então eles todos, menos as crianças, sentiam- se toscos e evitavam passar perto. Sabiam que não se atreveriam jamais a chegar perto daquele homem.
Aceitaram-no pelo dia afora, a casa aos poucos se enchendo de tensões pelos cantos. Elas se amavam, as pessoas daquela grande família, embora fosse um amor cotidiano, distraído, não de palavras e gestos mas de lençóis trocados em dias certos, refeições nas horas exatas, roupa lavada, delicadezas um pouco mecânicas. Mas com o dia avançando, as sombras ampliavam a presença do homem pela casa inteira. Essa sombra se infiltrando devagar em cada quarto jogava no rosto de cada um tudo aquilo que não haviam sido, que não haviam feito, tudo aquilo que tinham apenas ameaçado ser, intensos e cheios de sangue, para depois se amoldarem num dia-a-dia feito de automatismos. Quieta, remota, a presença do homem era uma afronta.
A hora do jantar, comeram em silêncio, trocando os pratos sem gentileza, os tinidos do metal na louça substituindo o afeto entre as paredes caiadas. E pela primeira vez, Valentina não riu. Distribuía os pratos rápida, ordenada, a boca endurecida depois de anos de riso aberto.

II
As crianças foram postas mais cedo na cama, conscientes apenas de que havia um desconhecido sentado na varanda. Os outros permaneceram na sala. Valentina tricotava enquanto as mulheres remexiam na cozinha e os homens fumavam cigarro após cigarro, todos em silêncio. Não se atreviam a formular as perguntas soltas no ar — viera para ficar, o homem? seria preciso arrumar uma cama para ele? e no quarto de quem? o que queria, depois de tanto tempo? Esqueceram de levar o chá para a avó inválida, esquecida na cama. E às dez horas, respeitando as batidas do velho relógio, recolheram-se a seus quartos em passos medidos e boas-noites medrosos.
Apenas Valentina ficou na sala, as agulhas trabalhando numa enorme trama azul-marinho, quase negra, que já escorregava de seus joelhos para atingir o chão, encaminhando-se como uma serpente lenta para a porta da varanda. Por duas horas ainda trabalhou, até que toda a sala estivesse coberta por aquele tapete, ou rede, ninguém saberia dar nome. À meia-noite levantou-se e espiou.
O homem continuava lá, na mesma posição desde que chegara. Como um faraó na cadeira dura, as duas mãos pousadas sobre as coxas, as palmas voltadas para baixo, os olhos fixos além de tudo. Escondida atrás das cortinas, Valentina viu que seus pés descalços pareciam raízes grossas ameaçando entrar pelo chão de tijolos, viu que suas unhas eram longas, ovaladas e quase verdes, feito folhas, e que seu rosto pétreo parecia um fruto sendo aos poucos esculpido, ainda verde, mas cheio de sementes que transpareciam no olhar. Desejou aproximar-se, tocálo, saber até que ponto aquela carne que tinha sido sua e lhe plantara filhos de carne também dentro de sua própria carne continuaria quente ao toque. Até que ponto continuavam mornas aquelas mãos que haviam despertado regiões desconhecidas de seu corpo, até que ponto continuava vivo aquele membro que fizera germinar cinco filhos em seu ventre. Não se atreveu. Chegou a ensaiar alguns passos na fronteira da varanda, pensando em ternuras, solidões há muitos anos caladas. Mas em tcomo do homem, como um ímã às avessas, alguma coisa repelia qualquer tentativa de aproximação.
Lenta, então, Valentina voltou para o próprio quarto e, embora não fosse o dia, escolheu os lençóis mais brancos e os travesseiros mais macios para fazer cama nova. Sacudindo panos, a janela aberta, fez com que o cheiro de alfazema se desprendesse para avançar até a varanda de begônias empoeiradas. Abriu a porta do quarto para que o homem percebesse o convite, trouxe da cozinha um caldo quente e colocou-o sobre a cômoda, dobrou uma toalha limpa e colocou-a dobrada sobre a cama com um sabonete de benjoim. Depois de tudo pronto, abriu leve a porta dos quartos dos filhos e noras, dos netos, da mãe, viu que dormiam em paz e voltou para o próprio quarto. Então olhou sua própria sombra projetada na parede:
um pouco curva, os seios murchos, caídos, as mãos cheias de rugas, as articulações nodosas, e aquele riso permanente durante os quase trinta anos que ele se fora, aquele riso que de mero dissímulo passara a ser verdade, aquele riso agora pesava, pesava, pesava.

III
No dia seguinte, os filhos no trabalho, as noras espalhadas, os netos na escola, espreitou o quarto, a cama, o caldo, a toalha, o sabonete. Permaneciam intocados, e o homem na varanda na mesma posição do dia anterior. Estaria morto? perguntou-se sem susto, quase tranqüilizada. Morto o homem, a casa voltaria a ser como antes e ela teria seu riso de volta. Mas, mesmo visto de longe, embora imóvel, o homem transpirava e pulsava na manhã escaldante de janeiro. Procurou então a mãe, no quarto. Abriu as cortinas enquanto um cheiro de mofo e dois olhos brilhantes saltavam do fundo da cama.
— Mãe, ele voltou.
— É tempo — disse a velha.
— Mãe, o que faço?
— Você está velha.
— Mãe, o que faço?
— Você está feia, Valentina.
— Mas o que faço, mãe? Ele está lá fora, na varanda. Ele está lá, no meio das begônias. Desde ontem, ele está lá, mãe.
A velha levantou o braço e mostrou o espelho amplo, de parede inteira. E num susto Valentina viu sua própria pele cor de terra, seu vestido desbotado, sua boca de riso morto parecendo costurada, as mãos como dois pergaminhos crispados, uma teia de rugas espalhada por toda a pele. Naquele dia, esqueceu do almoço, da limpeza da casa, do pó sobre os móveis, de tudo que fazia todas as manhãs. Debruçada na janela olhava com olhos parados a rua enchendo-se de cores e movimento, sem responder aos cumprimentos dos vizinhos. Quando os outros voltaram de suas ocupações, jogou um pedaço de came sangrenta numa panela com água e não arrumou a mesa nua. Sentada à cabeceira, olhava e agradecia. Os filhos eram bons. Mesmo o filho viúvo era alegre e bom e trabalhador, nunca o vira lidar com mulheres, bebida, jogatina. Quis sorrir para todos eles e para suas mulheres e para suas crianças, mas a boca costurada não obedecia. Então Valentina chorou. Todos compreenderam seu choro, e não perguntaram nada, nem tentaram consolá-la. Os traços de seu rosto pareciam desfazer-se com as lágrimas, caindo líquidos na madeira marcada. Mas os ombros não tremiam, e não havia nenhuma contração em sua boca, nenhum som em sua garganta. Sem revolta, ela aceitava. E chorava pela perdição de aceitar o que não pode ser modificado.

IV
Na varanda, o homem continuava. Dois dias se passaram, uma semana, um mês, muitos meses. E o homem lá, em meio às begônias cada vez mais emaranhadas, sem comer nem falar. O homem já esquecido pelas crianças, indiferente a todos os chamados que Valentina inventava. O tricô azul, quase negro, agora cobria a casa inteira — tapete, cortina, toalha de fios grossos onde todos se enredavam sem compreender, sem perguntar.
Certa noite Valentina ouviu risos no quarto do filho viúvo. Suspendeu o trabalho das agulhas e, pelo buraco da fechadura, espiou. Estavam lá, todos os filhos, mais duas mulheres e dois homens desconhecidos, todos nus, entre garrafas vazias, cartas de baralho manchadas de vinho, camas desfeitas. Alguns dos homens abraçavam as mulheres, outros abraçavam os homens, e todos juntos se abraçavam e beijavam e rolavam e gemiam feito animais. A madrugada vinha chegando. Ela saiu para o pátio e embaixo do umbu de tronco apodrecido observou a casa. O reboco caía em placas, a pintura das janelas descascava, teias de aranha pendiam do teto, morcegos esvoaçavam, ervas daninhas tramavam-se na terra. Num dos quartos, a velha mãe apodrecia morta e esquecida sobre a cama, as cinzas transbordavam do fogão até a porta da cozinha, as crianças comiam terra junto com os porcos. Olhou para si mesma, e sentiu o cheiro de suor antigo de seu próprio corpo, viu o vestido sem cor, as unhas enormes, os cabelos soltos despencando duros e sujos ao lado do rosto. O sol recém-nascido agora crestava as plantas, a terra se abria em rachas secas, um vapor fétido se evolava das coisas e milhares de moscas voavam tontas sobre os montes de lixo.
Valentina cruzou os braços sobre o peito, procurando dentro de si algum recanto úmido capaz de amenizar aquela secura das coisas. Mas dentro dela havia o mesmo deserto, as mesmas gretas, os mesmos vapores e moscas. Espiou a rua por entre os cacos de vidro do muro, e além dos portões de ferro o mundo inteiro era também vazio, árido, seco. Nos quartos os homens riam cada vez mais alto, mulheres nuas pintavam unhas de vermelho na cozinha, os pés apoiados sobre a mesa, e passeavam todos nus pela casa sem se importar que ela os visse com as mulheres, com os outros homens, com os animais, com as crianças, com eles mesmos, enredando-se bêbados nas tramas azuis muito escuras do tricô que cobria tudo.
Endurecida, Valentina olhava sem choque nem nojo. E de repente, como uma salvação possível, lembrou-se do homem que permanecia esquecido na varanda de begônias empoeiradas. No homem havia umidade quando estava seco, havia calor quando estava frio, no homem havia tudo o que precisava e um dia tivera e o que se fora para sempre e o que não voltaria nunca mais a ser. Correu para a varanda, atravessando seu próprio quarto onde o cheiro forte da alfazema antiga dava tonturas, tropeçando nos pratos espalhados pelo chão, enredando-se nas malhas que ela mesma tecera. Falaria, falaria agora, falaria enfim
— dizia para si mesma, rindo outra vez, os lábios descosturados outra vez.
Ao atingir a soleira da porta, percebeu que o círculo de repulsão em tomo do homem já não existia. Avançou, estendeu a mão. Tocou de leve no tronco da figueira que crescera arrebentando os tijolos do chão, esmagou entre os dedos um dos frutos verdes que deixou na sua pele um sumo pegajoso, adocicado, ardido. Bebeu daquele líquido, água, esperma, leite. Depois deixou a cabeça pender entre as samambaias e avencas tramadas nas begônias, os cabelos confundiram-se na poeira das plantas, o corpo foi rodando lento e oscilou precário até encontrar o frescor do chão de tijolos. Deixou que tudo acontecesse sem um grito, sem espanto. E quando finalmente sentiu-se protegida e úmida, e limpa e sorridente outra vez, e confortável e em paz, deixou que seus movimentos se espaçassem, suspirou e morreu.

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